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Convibra Conference - Sobrevivência Social do Adolescente e Indicadores de Sofrimento Psicológico
Sobrevivência Social do Adolescente e Indicadores de Sofrimento Psicológico

DOCUMENTAÇÃO

Tema: Saúde da Criança e do Adolescente

Temas Correlatos: Saúde da Criança e do Adolescente;

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AUTORIA

Zuleide Oliveira Feitosa

ABSTRACT
Introdução 
O cérebro adolescente passa por transformações complexas. Este é um momento de consideráveis mudanças físicas, psicológicas, cognitivas e socioculturais, sendo considerado, por alguns autores, como período esperado de crise (Carter & Mcgoldrick, 2001).  
Dessa maneira, a adolescência impõe desafios: em primeira instância, a compreensão do adolescente sobre as mudanças físicas e químicas que refletem no corpo e no modo de sentir e agir do adolescente, devem ser consideradas no curso do desenvolvimento biopsicossocial. Tais mudanças também impactam as capacidades técnicas e domiciliares para o educar, para a convivência familiar, e para alçar o movimento de socialização próprio dessa fase. 
Na tentativa de compreender o mundo adolescente e as transformações que o cérebro sofre nessa fase do desenvolvimento, a neurociência vem trabalhando para explicar porque o comportamento adolescente se mostra, de modo geral, tão atípico e pouco compreendido. 
Nesse sentido, a complexidade do desenvolvimento humano na adolescência, também evidencia que as situações de desafios sociais despertam várias sensações. Uma dessas sensações está associada à ansiedade e ao medo. Seja devido a um ambiente familiar instável, seja pelas mudanças que o adolescente enfrenta em função das transformações que ocorrem no cérebro e no corpo, ou seja devido a ambas. Deve-se admitir que nessa fase  as conexões entre o sistema límbico e a área de cognição do adolescente ainda estão precariamente interconectadas (desenvolvidas), visto que as escolhas dos (das)  adolescentes não incluem percepção acurada de risco e por isso a noção de causa-efeito- consequência se mostra prejudicada. 
O início da adolescência parece ser marcado por uma espécie de imprinting filial. Lorenz (1903 – 1989) evidenciou, ao estudar animais recém nascidos, que o imprinting é um fenômeno que acontece de maneira instintiva em várias espécies como um comportamento adaptativo. 
De modo análogo, sugere-se que o comportamento no início da adolescência pode se relacionar com o efeito do imprinting, visto que seguir um grupo ou o líder parece ser uma necessidade. Talvez, seja uma tentativa de adaptar-se ao meio.
 Dado o contexto ansiogênico em que os adolescentes vivenciam na família e escola, espera-se que esse fenômeno (imprinting) seja parte da complexidade do início da adolescência, visto que o adolescente parece buscar a sobrevivência social de maneira instintiva. O que explicaria a ação de seguir um grupo sem conhecer de fato os comportamentos dos seus pertencentes. 
Estima-se que ao printar (marcar) um grupo ou líder, mesmo que os comportamentos do grupo sejam inadequados ou não para si mesmo, o dolescente segue o que os outros fazem. Por exemplo, o (a) adolescente, quando perguntado (a), não expressa que segue um grupo a ou b. Ele ou ela simplesmente declara que, por vezes, apenas estão ali seguindo o que os outros seguem. Tal comportamento de imersão parece estar relacionado à necessidade de sobrevivência social (luta pelo sentimento de pertencer mesmo sem saber dos riscos ou das consequências). Assim, parece que o comportamento ocorre de modo mais instintivo, do que de maneira condicionada – imprinting filial. 
Uma vez admitido que a imersão social durante a adolescência é uma experiência nova e cheia de situações desconhecidas, que coloca o adolescente frente ao desafio da sobrevivência social, estima-se que tais situações parecem ser fonte recorrente de ansiedade e medo. Unindo-se a isso, a ideia de que os conflitos na família podem potencializar a ansiedade, chega-se a seguinte hipótese: os reflexos desses conflitos, no comportamento do adolescente e no ambiente escolar, parecem inevitáveis, visto que a ansiedade de lidar com as novas transformações do corpo e do ambiente podem ser potencializadas por meio das relações conflituosas da família. Tendo como consequência mais imediata. Diante da retratação da complexidade adolescente, indica-se que os comportamentos gerados como consequência da ansiedade estão a serviço da necessidade de sobrevivência social. Logo, tem-se o desafio de objetivamente avançarmos no entendimento do comportamento adolescente a fim de compreender como se dá a imersão social e suas consequências. 
Na tentativa de corroborar algumas das suposições anteriormente mencionadas, pode-se citar um exemplo do caso empírico - Intervenção Psicossocial com alunos do ensino fundamental de uma escola, no período após a COVID – 19, como será discorrido a seguir: 

2 Metodologia
Amostra 
Os casos empíricos descritos a seguir se referem aos 52 alunos de uma escola pública que foram atendidos no período de 3 meses por meio do Projeto de Intervenção e Pesquisa Psicossocial, na Educação Básica do Ensino Fundamental-PIPEC. O Projeto está abrigado em uma Escola Pública. Dentre esses alunos 29% declararam passar por conflitos na família, tais como, inaceitação, maus tratos psicológicos e físicos; 23% queixaram-se de ter crises de ansiedade em casa e na escola; 15% declaram sentir baixa autoestima; 13% dizem sofrer bullying na escola; e 7% reclamaram de passar por luto (perdas de pessoas queridas, tais como, avós, pai ou mãe. A faixa etária varia entre 9 e 15 anos e a maioria 69%, entre aqueles que eram encaminhados ou procuravam pelo atendimento psicológico, eram do sexo feminino. O perfil dos alunos da referida escola é de classe pobre (E e F). 
Procedimento 
Seguiu-se com o mapeamento dos casos atendidos. Para cada aluno encaminhado ao atendimento foi realizado o registro da queixa por meio da anamnese e aprofundada a investigação sobre a queixa. Sequencialmente, foi realizada a intervenção necessária junto ao aluno. A intervenção baseou-se na aplicação de técnicas objetivas para intervir nos casos de ansiedade, mutilação e crise de pânico. Também, a escola foi orientada a chamar a família e conduzir ao atendimento psicossocial como ação ativa por parte do  da equipe da psicologia. 
Instrumentos
Anamnese, inventário de ansiedade (Leahy, 2011) e treino de habilidades sociais (Barbosa, 2020).
Método de Análise 
A técnica de estatística descritiva foi utilizada para mapear as principais recorrências de conflito na adolescência identificados no atendimento psicossocial na escola de ensino fundamental. 

3 DISCUSSÃO E CONSIDERAÇÕES 
As três diferentes situações identificadas na pesquisa realizada por meio do Projeto PIPEC, a saber: adolescente ansiosos, que descarregam ansiedade por meio da prática do bullying; adolescentes ansiosos, que introvertem a ansiedade entrando em crise de ansiedade e pânico; e adolescentes, que se punem seja de forma física, por meio da automutilação, seja de por meio do psicológico, a baixa autoestima, ou ainda ou por meio de ambas foram atendidos e socorridos na própria escola. As estratégias de intervenção utilizadas foram baseadas no manuseio da ansiedade (Leahy, 2011) e treino de habilidades sociais (Barbosa, 2020). A adoção de tais estratégias foram razoáveis para se obter êxito nos relacionamentos adolescentes e promover saúde mental. 
Outra forma de intervenção complementar foi baseada na adoção da família como parte da situação escolar. Buscou-se chamar alguém da família, responsável pelo adolescente. Uma medida que facilitou ouvir e compreender com mais detalhes a forma estrutural familiar. Não era incomum a situação de que o responsável era chamado e não comparecer à escola, mas ao insistir sempre vinha alguém. 
Uma das estratégias adotadas pelos atendentes (psicólogo/psicopedagogo/ estagiários) era acolher o responsável pelo adolescente e torná-lo ciente de que não estava ali devido a um comportamento inadequado, portanto não deveria ser punido. O responsável era conscientizado que estava na escola em função da necessidade de conhecer mais sobre o processo educativo e a realidade do adolescente. Também ficava sabendo ainda que o apoio e o acolhimento para com o adolescente eram essenciais para a saúde mental de ambos.
Uma expressão de desespero na face do adolescente era muito recorrente quando se mencionava a necessidade de um familiar vir à escola. Situação em que se cuidava para que não houvesse dúvidas que a ideia era inserir um familiar no processo educacional do adolescente. 
Uma das principais conclusões que se pode apontar como resultado da intervenção com adolescentes do ensino fundamental é que a participação da família, o acolhimento do professor podem ser uma das principais estratégias para o êxito de ampliar a capacidade de aprendizagem e a saúde mental do adolescente. Por fim, lidar com as transformações comuns a esta fase, possibilita indicar que o acolhimento afetivo, por parte da família e escola, pode ser a base para a evolução das conexões afetivas entre o sistema límbico e a área pré-frontal do adolescente. 
Além do mais, evidenciou-se que o comportamento adolescente evolui em complexidade, ainda deve-se investigar por meio da pesquisa, a fim de se obter maior clareza sobre o desenvolvimento nesta fase. Observou-se ainda, que aos poucos a complexidade pode adquirir novas compreensões a partir de novas investigações. Dessa maneira, entende-se que a necessidade de sobrevivência social esboçada pelos comportamentos do adolescente pode ser mais uma explicação pertinente para avançarmos sobre o conhecimento do seu cérebro, bem como para o entendimento de que a sociabilidade do adolescente acontece numa relação recíproca entre sobreviver socialmente e as transformações que acontecem no cérebro nesse período da vida. 

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