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Convibra Conference - “Eu quero entrar na rede”: o uso da NTICs para a construção de um blogue por usuários de CAPS
“Eu quero entrar na rede”: o uso da NTICs para a construção de um blogue por usuários de CAPS

DOCUMENTAÇÃO

Tema: Saúde e Tecnologia da Informação e Comunicação

Temas Correlatos: Saúde Mental;

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AUTORIA

Bruna Vanessa Dantas Ribeiro , André Pereira Neto , Ana Paula Freitas Guljor

ABSTRACT
Introdução
Este resumo expandido apresenta o relato de experiência do projeto “Eu quero entrar na Rede” desenvolvido com dez moradores de comunidades de baixa renda do Rio de Janeiro que vivem em sofrimento psíquico. O Projeto foi realizado a partir do aporte das Novas Tecnologias da Informação e Comunicação (NTICs) e balizado pelos preceitos da Reforma Psiquiátrica Brasileira (AMARANTE; NUNES, 2018). 
A experiência teve como objetivo a produção de um blogue sobre saúde mental pelos usuários. O blogue foi utilizado enquanto espaço de fala, ferramenta para diminuição da invisibilidade e empoderamento de pessoas em sofrimento psíquico. Compreendemos a internalização de novas experiências e a valorização da fala do usuário como diretrizes significativas para a transformação do lugar social da loucura.
O projeto “Eu quero entrar na rede” foi aprovado em um edital de Divulgação Científica da Vice-Presidência de Ensino, Informação e Comunicação (VPEIC) da Fiocruz. Ele foi desenvolvido em parceria entre o Laboratório Internet, Saúde e Sociedade (LaISS), o Centro de Atenção Psicossocial Carlos Augusto da Silva Magal (CAPS-Magal) e o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS). Ambos os laboratórios são parte integrante da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
O CAPS-Magal fica localizado no bairro de Manguinhos, na cidade do Rio de Janeiro e atende as regiões de Manguinhos, Maré, Benfica e Tuiuti – bairros da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. O complexo de favelas de Manguinhos é marcado pela precária condição socioeconômica de seus moradores e por uma violência sistemática. Ao sofrimento mental dos usuários do CAPS-Magal, se somam outras questões que acentuam a exclusão social desses indivíduos: alta taxa de violência, baixa escolaridade, baixa renda e falta de emprego fixo.

Metodologia 
A experiência contou com a participação de 10 usuários do CAPS Magal e teve a duração de 12 meses, de outubro de 2018 e setembro de 2019. Foram realizados 40 encontros semanais no LaISS com a mediação de uma profissional do laboratório e o acompanhamento de um profissional do CAPS. Os encontros tiveram a duração de duas horas. Os participantes foram selecionados pela equipe do CAPS-Magal que, tendo em vista a proposta de construção de um blogue, tiveram como critério de seleção a estabilidade no tratamento e domínio básico de ferramentas digitais. A seleção resultou em um grupo formado por oito homens e duas mulheres com idade entre 20 e 40 anos, moradores das comunidades de Manguinhos e Maré (PEREIRA NETO et al.;2020; RIBEIRO; PEREIRA NETO; GULJOR, 2021; RIBEIRO, 2021). Os usuários participantes receberam uma bolsa auxílio mensal de 100 reais.
Todo o processo do projeto foi estruturado por uma equipe multidisciplinar, que incluiu profissionais da área da saúde e das ciências humanas e sociais do LaISS, do CAPS-Magal e do LAPS. A equipe do projeto se reuniu mensalmente para debater e planejar de forma contínua e coletiva as atividades do projeto. Buscando uma maior valorização e troca de conhecimento entre profissionais, pesquisadores e usuários, somada à promoção da autonomia dos participantes, o trabalho foi desenvolvido a partir das abordagens teóricas da translação do conhecimento (CLAVIER et al., 2011) e os pressupostos teórico-pedagógicos de Paulo Freire (FREIRE, 1967; 2019). As atividades também incorporaram elementos da ‘Pedagogia baseada em competências’ (SACRISTÁN, 2011).
Durante o desenvolvimento do projeto foram produzidos materiais (relatórios, cronogramas, tabelas de avaliação de competências, etc) que permitiram o registro, e consequentemente a reprodução, das atividades do projeto. esses materiais foram base para este relato de experiência.

Resultados
As atividades do projeto se dividiram em quatro etapas seguidas do lançamento do Blogue em 28 agosto de 2019 e da continuidade da produção de conteúdo até novembro de 2019 (PEREIRA NETO et al.;2020):
1 –  Apresentação do espaço da Fiocruz e introdução teórica e crítica - 1 mês (outubro de 2018)
2 - Diagnóstico e nivelamento de competências - 2 meses (novembro e dezembro de 2018)
3 - Construção do blog - 3 meses (janeiro a março de 2019)
4 - Produção de conteúdo - 6 meses (março a agosto de 2019)
Tendo como base o método e as abordagens teórica e pedagógica citadas, foram desenvolvidas com os usuários atividades de cunho teórico e prático visando a produção de um blogue. As atividades práticas em laboratório passaram por elaboração e crivo coletivo e tinham como proposta a produção de conhecimento técnico instrumental para o uso das Novas Tecnologias da Informação e Comunicação (NTICs). As atividades teóricas envolviam a aproximação dos usuários com temas como comunicação comunitária, Reforma Psiquiátrica Brasileira, desigualdade social, etc. A discussão destes temas tinha como objetivo desenvolver a capacidade crítica sobre a realidade vivenciada por eles. Igualmente importante era a possibilidade de conversão desses temas em conteúdos para o blogue. 
 Foram realizadas palestras, rodas de conversa, exercícios de análise e produção de conteúdo. Foram priorizadas as atividades que proporcionam maior autonomia, troca de experiência e conhecimento entre os usuários. Eles foram incentivados a trabalharem e a circularem pelo território de forma autônoma e acompanhados dos colegas. 
O blogue Libertando a Mente (https://projetolibertandoamente.wordpress.com/ entrou em atividade em abril de 2019 e o nome foi escolhido pelos usuários de forma coletiva e forma democrática através de debate e votação. A construção do blogue e a produção de conteúdo também se deu de forma colaborativa. Durante as atividades do projeto foram feitas 19 postagens, variando entre conteúdos em texto, imagem e vídeo. Dentre esses houveram conteúdos sugeridos e produzidos por usuários individualmente ou pautados e produzidos coletivamente. As postagens tratam de temas variados como a vida na comunidade, questões específicas do CAPS, estigma, alimentação, exercícios físicos, música, etc. 
O projeto foi finalizado com o evento de lançamento do blogue ‘Libertando a Mente’, realizado no dia 27 de agosto de 2019 no Salão Internacional da Ensp/Fiocruz. No evento, que era aberto à sociedade, os usuários foram protagonistas lendo um texto construído por eles para a ocasião e apresentando conteúdos produzidos para o blogue. 

Conclusão
A partir da experiência relatada entendemos que o projeto teve resultados no campo social, tecnológico e comunicacional. No campo das relações sociais, os métodos e pressupostos teóricos adotados e as atividades de produção de conteúdo desenvolvidas mostraram-se eficientes para a promoção de protagonismo e empoderamento dos usuários participantes. Concomitantemente, o projeto resultou em um aprofundamento das relações entre os usuários participantes, que ao longo das atividades desenvolveram laços de amizade e troca.
Na perspectiva tecnológica e comunicacional, compreendemos que houve uma evolução das competências e habilidades dos educandos para manuseio das NTICs, culminando na criação do blogue ‘Libertando a Mente’. O blogue se organizou como espaço de fala, permitindo uma maior articulação social dos usuários.
A experiência revela que o planejamento e gestão compartilhada do projeto realizado por LaISS, LAPS e CAPS-Magal, proporcionou a construção e revisão contínua do trabalho desenvolvido. Nesse sentido, a articulação multidisciplinar foi efetiva e produtiva. Em simultâneo, a utilização de metodologias participativas incentivou a troca de conhecimentos e a valorização dos saberes envolvidos (PEREIRA NETO et al.;2020; RIBEIRO; PEREIRA NETO; GULJOR, 2021; RIBEIRO, 2021). 
Conclui-se que o projeto “Eu quero entrar na rede” incentivou os processos de democratização da informação e promoveu o protagonismo dos usuários em consonância com as diretrizes propostas pela Reforma Psiquiátrica Brasileira.

Referencial teórico
AMARANTE, Paulo; NUNES, Mônica de Oliveira. A reforma psiquiátrica no SUS e a luta por uma sociedade sem manicômios. Ciênc. Saúde Colet. 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/tDnNtj6kYPQyvtXt4JfLvDF/?lang=pt. Acesso em 15 de ago. 2022.

CLAVIER, C. et al. A theory-based model of translation practices in public health participatory research. Sociology of Health & Illness. v. 34, n.5, p. 791-805. 2011.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de janeiro: Paz e terra, 1967.
______. Pedagogia Do Oprimido. São Paulo: Paz e terra, 2019.

PEREIRA NETO et. al. Eu quero entrar na rede: análise de uma experiência de inclusão digital com usuários de Caps. Revista do centro brasileiro de estudos de saúde, volume 44, número especial 3, Rio de janeiro, out 2020. Disponível em: https://saudeemdebate.org.br/sed/issue/view/41/v.%2044%2C%20n.%20ESPECIAL%203. Acesso em 13 de jul.2022.

RIBEIRO, Bruna Vanessa Dantas; PEREIRA NETO, André de Faria; GULJOR, Ana Paula Freitas. Inclusão digital de pessoas em sofrimento psíquico: uma reflexão freireana sobre a mediação no projeto “Eu quero entrar na Rede”. Rev. Ed. Popular, Uberlândia, Edição Especial, p. 170-191, set. 2021.

RIBEIRO, Bruna Vanessa Dantas. Comunicação pedagógica: sofrimento psíquico e inclusão digital. In: OGATA, Márcia Niituma; PEDRO, Wilson José Alves (orgs.). Diálogos CTS com Paulo Freire. Campina Grande: Eduepb, 2021.

SACRISTÁN, José Gimeno. Dez teses sobre a aparente utilidade das competências em educação. In: SACRISTÁN, José Gimeno et al. Educar por competências: o que há de novo? São Paulo: Artmed; 2011. p.13-63.

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