Terapia Comunitária Integrativa On-line: promoção de saúde e de cuidado frente à pandemia da COVID-19

Temas: Evidências científicas e relatos de experiência sobre Covid-19


Certificado de publicação:
Certificado de Josenaide Engracia dos Santos
Certificado de Daniela da Silva Rodrigues

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AUTORIA

Daniela Da Silva Rodrigues , Doralice Oliveira Gomes , Josenaide Engracia Dos Santos , Flávia Mazitelli De Oliveira

ABSTRACT
Apresentação

Este trabalho trata da proposta de promoção de cuidado à saúde comunitária por meio da Terapia Comunitária Integrativa (TCI) adaptada para o contexto on-line. A proposta tem como orientação as diretrizes para realização da TCI On-line elaboradas pela Associação Brasileira de Terapia Comunitária Integrativa – ABRATECOM, com a colaboração da Associação Mundial e Brasileira de Psiquiatria Social – ABPS (BARRETO et al., 2020). 
Em consonância com as Diretrizes supramencionada, o Grupo de Trabalho de Promoção e Prevenção à Saúde Mental (GT-Promo.Prev), do Subcomitê de Saúde Mental e Apoio Psicossocial no Enfrentamento da Covid-19 da Universidade de Brasília (UnB), tem realizado encontros semanais regulares de TCI On-line direcionados à comunidade universitária e externa à UnB (UnB, 2020). 
A Terapia Comunitária Integrativa (TCI) é uma abordagem de atenção à saúde comunitária, criada pelo Prof. Dr. Adalberto Barreto, da Universidade Federal do Ceará. É uma prática que incentiva, por meio de encontros comunitários, a expressão de experiências de vida, possibilitando que as dificuldades vivenciadas no cotidiano possam ser compartilhadas, bem como as estratégias de superação que foram desenvolvidas (BARRETO, 2013). É uma Prática Integrativa em Saúde validada na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (BRASIL, 2018) e na Política Distrital de Práticas Integrativas em Saúde (DISTRITO FEDERAL, 2014).
 A TCI On-line na UnB foi elaborada por meio de construção coletiva, intersetorial, interdisciplinar e de articulação interinstitucional envolvendo vários atores sociais, com a finalidade de promover intervenções de apoio emocional e fortalecimento da rede de apoio social de modo a promover e prevenir os efeitos na saúde mental relacionados ao surto de Covid-19. Desse modo, trata-se de um espaço virtual de cuidado coletivo com a proposição de possibilitar um local para compartilhar vivências, fortalecer laços afetivos, promover a aproximação e romper com o estado de isolamento social em tempos de pandemia.

A UnB no contexto da pandemia

A pandemia causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2), que provocou a doença Covid-19, teve impactos sociais, políticos e econômicos na população brasileira e mundial, levando a Organização Mundial de Saúde (OMS) a indicar o isolamento social como método para evitar a disseminação do vírus. O isolamento refletiu diretamente nas instituições de educação do ensino fundamental ao superior, provocando uma ruptura abrupta na vida diária dos estudantes, professores, técnicos administrativos e demais profissionais que compõe a comunidade acadêmica
A Universidade de Brasília (UnB), adotou o isolamento social como estratégia para evitar a disseminação do vírus, conforme orientação da OMS, e criou Comitê gestor COES-Covid/UnB para realizar estudos, ações, orientações e prestar consultoria à Administração Superior da Universidade de Brasília acerca de ocorrências relacionadas à Covid-19 na UnB.
Foi criado dentro do COES-Covid/UnB o Subcomitê de Saúde Mental e Apoio Psicossocial com o objetivo de discutir ações necessárias face à previsão do impacto da pandemia na saúde mental da população; com destaque para as medidas preventivas como o isolamento social e rotinas de higiene pessoal e ambiental protocolares. A atenção à saúde mental encontra respaldo na literatura científica, como o proposto por  Fiorillo e Gorwood (2020), segundo os quais as medidas de isolamento produzem incerteza sobre o futuro, medo, depressão ansiedade, e condições de saúde mental incapacitantes entre homens e mulheres adultos, incluindo transtornos relacionados ao pânico, estresse e trauma. 
Nesse cenário, a UnB seguiu a orientação da OMS e reforçou a necessidade de isolamento social. Consciente do impacto do isolamento social e das demais medidas preventivas sanitárias na saúde mental e, consequentemente, do sofrimento psíquico da comunidade universitária, a estruturação das ações desse Subcomitê pautou-se em modelos orientados pela perspectiva virtual, entendendo esse formato mais adequado na prevenção do contágio da Covid- 9.
Cabe destacar que a UnB foi uma das precursoras da proposta de TCI On-line no Distrito Federal, fruto de uma parceria entre a UnB e a Gerência de Práticas Integrativas em Saúde da Secretaria de Estado da Saúde do Distrito Federal (SES-DF).

Encontros de Escuta Virtual: construindo as “rodas” de Terapia Comunitária Integrativa online

Frente às mudanças que ocorreram no cotidiano de toda a comunidade acadêmica pela pandemia, o GT-Prev.Promo buscou ofertar espaços de cuidado por meio de práticas integrativas promotoras de saúde, como a TCI on-line.
A TCI é um espaço comunitário e o seu desenvolvimento baseia-se em cinco grandes eixos teóricos: i) Pensamento sistêmico; ii) Teoria da comunicação; iii) Antropologia cultural; iv) Pedagogia de Paulo Freire e, v) Resiliência. A TCI é uma prática que possibilita a criação de redes solidárias, que mobiliza recursos e competências internas de cada pessoa, despertando a dimensão terapêutica do grupo (BARRETO, 2013). 
O confinamento obrigou a UnB a estruturar novas abordagens e estratégias de acolhimento da sua comunidade acadêmica, sobretudo pensar em ambientes promotores de saúde na perspectiva virtual, um desafio para a equipe do GT-Promo.Prev. Nesse sentido, a TCI online tornou-se uma nova forma de compartilhamento, de escuta, de vínculos e de trocas de experiências entre as pessoas para o enfrentamento da pandemia de modo a romper com o isolamento social.
No intento de diminuir possíveis resistências ao termo “terapia” optou-se por nomear os encontros de “Encontros de Escuta Virtual”. No início das “rodas” os terapeutas apresentavam qual seria a metodologia utilizada na TCI. Os encontros das TCIs on-line foram desenvolvidos na plataforma digital Zoom. As “rodas” foram iniciadas em abril de agosto de 2020, eram conduzidas por dois terapeutas comunitários e ocorriam todas as segundas, terças e quintas-feiras, de periodicidade semanal, com duração de aproximadamente duas horas. A terminologia “rodas” é comumente utilizada nas TCIs presenciais, pois o grupo é organizado em um círculo, foi transposta para os grupos virtuais tal o clima de acolhimento, afetividade e apoio mútuo presente nos encontros.  
A divulgação dos encontros de TCIs foi feita em redes sociais, visando alcançar toda a comunidade acadêmica da UnB, e a inscrição era realizada por meio de um link via formulário Google Docs – Formulário. Os interessados escolhiam o dia para estarem nas sessões de TCIs e o número de participantes em cada encontro variou entre 10 a 20, distribuídos entre as três “rodas”. Atualmente há 130 pessoas inscritas nos grupos de TCI.
No decorrer de cada encontro eram elencados os temas relacionados às preocupações e aos sofrimentos relatados pelos participantes, como preconiza uma das etapas da TCI; bem como as estratégias de superação para lidar com os desafios. O tema a ser discutido naquele dia era escolhido pelos participantes por meio de voto. Na nossa experiência com 53 TCIs Online e 661 atendimentos as problemáticas que surgiram foram: 

•	Medo e sentimento de angústia e vulnerabilidade devido à pandemia; em especial de contaminar-se ou contaminar a família; 
•	Solidão e saudades da família;
•	Tristeza, autocobrança e culpa por sentir não produtivo (atividades acadêmicas, projetos, tarefas do dia a dia);
•	Tristeza e impotência diante da realidade das pessoas menos favorecidas na pandemia;
•	Ansiedade e dificuldade para dormir;
•	Ansiedade e preocupação com os familiares;
•	Dificuldade de dizer não, de colocar limites;
•	Sentimento de impotência e insegurança;
•	Perda de pessoas amadas;
•	Ansiedade e angústia devido ao isolamento;
•	Tédio;
•	Baixa autoestima;
•	Dor e tristeza pelas expressões de ódio e racismo.

	Paralelamente aos encontros nas rodas de TCI On-line foram criados grupos de WhatsApp a fim de fazermos informes sobre os encontros. Todavia, o grupo extrapolou o objetivo inicial, uma vez que os participantes estabeleceram vínculos de afeto nos encontros virtuais e transpuseram para os grupos neste aplicativo de comunicação. Os grupos de WhatsApp tornaram-se espaços de apoio mútuo e fortalecimento social, como uma partilha de recursos de autocuidado, expressões de arte, humor, entre outros. Um dos fatos de destaque foi o pedido de ajuda de uma estudante com ideações suicidas. O pedido mobilizou o grupo que acionou profissionais para darem suporte à colega em crise e pode prevenir o suicídio e reforçar a rede de apoio entre eles.
Os participantes relataram espontaneamente benefícios advindos da participação nos encontros virtuais e na rede de apoio, como: melhora no desenvolvimento das responsabilidades acadêmicas e diárias; engajamento em atividades de autocuidado como meditação e exercício físico; melhora no sono; diminuição da ansiedade; realização de práticas artísticas em casa, como artesanato, pintura, poesia; reaproximação com amigos com os quais estavam em conflito; autocompreensão; diminuição da cobrança interna; alívio por expressarem-se e serem ouvidos com afeto e respeito. 
Em virtude da retomada das atividades acadêmicas em formato remoto, e face os benefícios obtidos nas TCIs On-line ao longo de 5 meses, a UnB em parceria com a SES-DF e voluntários criou uma disciplina de Terapia Comunitária Integrativa e Práticas Integrativas em Saúde On-line. A disciplina foi ofertada para todos os cursos da Universidade com o objetivo de manter o espaço de apoio e escuta virtual; e para validar o espaço-tempo de autocuidado e de cuidado social como contribuintes no processo formativo dos estudantes. A disciplina virtual tem dois créditos semestrais, intercalando práticas de TCI e a parte teórica com diário de bordo, leituras reflexivas e resenhas de filmes. A disciplina é aberta à comunidade externa; sem necessidade que essa formalize matrícula. As TCIs online serão realizadas pela equipe de terapeutas integrantes do GT-Promo.Prev.


 Considerações Finais

A experiência da TCI On-line mostrou-se uma alternativa intersetorial viável e de importância inconteste para a promoção, prevenção e suporte emocional em tempos de enfrentamento à pandemia do Covid-19. 
Houve, no decorrer das ações do GT-Promo.Prev, o desenvolvimento de um processo resiliente pois frente ao desafio de cuidar da saúde emocional surgiram avanços nos cuidados com a saúde da comunidade acadêmica, extensiva à comunidade em geral, que apontam para melhores processos formativos e de qualidade de vida dos estudantes (MOYSÉS et al., 2004), bem como de toda a sua comunidade acadêmica.
A TCI On-line contribuiu para o processo resiliente institucional, comunitário e pessoal; evidenciando que as adversidades e desafios constituem-se em fontes motivadoras para o surgimento de estratégias criativas, adaptadas e eficazes.  
 
Referências

BARRETO, A.P. Terapia Comunitária Integrativa: passo a passo. 4ª Ed. revisada e ampliada, Fortaleza: Gráfica LCR, 2013, 408p.

BARRETO, A.P et al. Diretrizes para realização da Terapia Comunitária Integrativa on-line. (prelo).

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 702, de 21 de março de 2018. Altera a Portaria de Consolidação nº 2/GM/MS, de 28 de setembro de 2017, para incluir novas práticas na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares - PNPIC, Brasília, 2018.

DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal. Política distrital de práticas integrativas em saúde: PDPIS / Secretaria de Estado de Saúde. Subsecretaria de Atenção Primária à Saúde. Gerência de Práticas Integrativas em Saúde – Brasília: Fepecs, 2014.

MOYSÉS, S.J.; MOYSÉS, S.T.; KREMPEL, M.C. Avaliando o processo de construção de políticas públicas de promoção de saúde: a experiência de Curitiba. Cienc. Saúde Colet., v.9, n.3, p.627-41, 2004.

FIORILLO A, GORWOOD P. The consequences of the COVID-19 pandemic on mental health and implications for clinical practice. European Psychiatry, v. 63, n. 1, e32, p.1–2, 2020.

UNB. Plano de Contingência em Saúde e Apoio Psicossocial para Enfrentamento do novo Coronavírus para a Universidade de Brasília (UnB), 2020. Disponível em: http://www.unb.br/images/Noticias/2020/Documentos/2020-PlanoContingenciaCovid19_v6.pdf. Acesso em: 13 ago. 2020.

Para participar do debate desse artigo, .


Comentários
Foto do Usuário Ana Maria Rodrigues Moreira 09-02-2021 12:50:35

Houve casos que foi necessário encaminhar o paciente para atendimento presencial por algum relato de risco ?

Foto do Usuário Tatiane De Oliveira Silva Alencar 09-02-2021 12:50:35

O texto trouxe uma experiência bastante positiva e que pode ser replicada no contexto da pandemia. Os resultados produzidos forma muito importantes.Sugiro apenas uma reescrita do item Introdução dando-lhe um aspceto mais de texto científico.

Foi incrível, Doralice!!! Belo ver sua sensibilidade e dedicação, parabéns.